
A taxa de entrega que dá prejuízo: por que cobrar fixo custa caro
Vitor Freitas, CTO do Liahub6 min de leitura
Quase toda loja que começa a entregar escolhe a taxa do jeito mais simples possível: um valor único, igual para todo mundo. Oito reais. Dez reais. O número sai de uma conta de cabeça — “o motoboy me cobra tanto, então cobro tanto” — e fica ali, sem ninguém revisar, por anos.
O problema é que esse número é uma média. E média, em entrega, é quase sempre a resposta errada para os dois lados: cara demais para o cliente da esquina, barata demais para o cliente do outro bairro. Você perde pedido de um e perde dinheiro no outro, ao mesmo tempo, sem que nenhum dos dois apareça num relatório.
As duas perdas que a taxa fixa cria
A primeira é o pedido que não acontece. O cliente que mora a seiscentos metros olha oito reais de frete sobre um lanche de vinte e cinco e desiste — ou, pior, passa a pedir só quando a fome justifica trinta e três reais. Você nunca fica sabendo. Não existe relatório de pedido que não foi feito; a perda é invisível por natureza, e é justamente por isso que quase ninguém age sobre ela.
Essa é a faixa mais valiosa que existe: cliente perto, entrega rápida, motoboy volta logo e faz outra. É o pedido mais barato de atender e o mais fácil de repetir. Cobrar dele o mesmo que se cobra de quem mora a seis quilômetros é afastar exatamente quem deveria virar habitual.
A segunda é o pedido que sai no prejuízo. O cliente distante paga os mesmos oito reais numa corrida que custa quinze, leva quarenta minutos e prende o entregador. Esse aparece no faturamento como venda normal, com a margem corroída em silêncio. Dez entregas dessas por semana somam um valor que ninguém procura, porque está diluído dentro do que parece um bom mês.
Junte as duas: você espanta o pedido lucrativo e subsidia o pedido caro. É o pior dos dois mundos, e ele nasce de uma decisão que parecia só uma simplificação.
Os três modos, e quando cada um é o certo
Não existe modo superior — existe o que corresponde à geografia do seu negócio. São três, e a escolha é de um só, nunca dos três somados: taxa que vem de duas regras ao mesmo tempo é taxa que o atendente não sabe explicar no telefone.
Por faixa de quilômetro. Você define degraus — até 2 km, até 4 km, até 6 km — e cada degrau tem seu preço. É o modo mais justo quando sua região é razoavelmente homogênea e a distância realmente prevê o custo. O cliente entende na hora, porque a lógica é a mesma de qualquer aplicativo que ele já usa.
Por zona desenhada no mapa. Você desenha polígonos sobre o mapa e dá um preço a cada um. Serve quando a distância mente: um bairro a três quilômetros do outro lado de um rio, de um morro ou de uma avenida engarrafada pode custar mais que outro a seis. Bairro não é círculo, e é por isso que a zona aceita forma côncava, acompanhando a rua de verdade em vez de um raio.
Valor fixo. Continua sendo a resposta certa quando sua área de entrega é pequena e uniforme — um raio de dois quilômetros num bairro plano. Aí a variação de custo é pequena o suficiente para não valer a complexidade, e o fixo é o mais simples de comunicar.
O erro não é usar taxa fixa. O erro é usar taxa fixa porque nunca se pensou no assunto. No Liahub, os três modos convivem na mesma tela de coleta e entrega, e você troca de um para outro sem refazer cadastro.
Os três limites que protegem a margem
Escolher o modo é metade do trabalho. A outra metade são os limites, e é onde a maioria das lojas deixa dinheiro na mesa por nunca ter configurado nada.
Raio máximo. Até onde você entrega. Sem esse limite, o atendente aceita um pedido a doze quilômetros num sábado à noite porque não tem como saber que aquilo é longe demais — e prende o único entregador por uma hora enquanto três pedidos perto esperam. Com o limite definido, o aviso aparece antes de fechar o pedido, quando ainda dá para combinar outra coisa com o cliente.
Pedido mínimo. Abaixo de certo valor, a entrega não se paga. Vale como aviso, não como bloqueio: quem decide é o atendente, que pode ter um bom motivo para liberar — o cliente é habitual, está na esquina, já pediu três vezes essa semana.
Frete grátis a partir de um valor. Esse é o único dos três que aumenta faturamento em vez de proteger margem, e por isso costuma ser o mais mal usado. Ele funciona quando o valor está logo acima do seu ticket médio: se a média é quarenta e o frete zera aos cinquenta, uma parte dos pedidos sobe para cinquenta. Se o frete zera aos cento e vinte, ninguém muda de comportamento e você só deu desconto para quem já gastaria muito.
Um detalhe que só aparece na contabilidade
Tem uma parte da taxa de entrega que raramente entra na conversa e importa bastante: onde esse valor aparece depois.
Frete somado “por fora”, anotado à parte ou embutido no preço do produto, cria dois problemas. O primeiro é fiscal — o frete tem tratamento próprio na nota, e misturá-lo ao valor dos itens distorce o que você está declarando. O segundo é de gestão: no fim do mês você não consegue responder quanto a operação de entrega custou nem quanto ela rendeu, porque o número nunca existiu separado.
Quando a taxa entra na venda e sai na nota como frete, as duas coisas se resolvem sozinhas. Você passa a ter a receita de entrega como uma linha própria, comparável com o que você paga aos entregadores — e aí, sim, dá para saber se a operação fecha.
Por onde começar
Não precisa reconfigurar tudo de uma vez. Um exercício de quinze minutos, com o que você já tem:
Pegue os pedidos de entrega da última semana e separe em três grupos por distância: perto, médio e longe. Para cada grupo, compare o que você cobrou de frete com o que pagou de entrega. Provavelmente o grupo “perto” cobriu com folga, o “médio” empatou e o “longe” ficou negativo.
Esse é o desenho das suas faixas. Não é teoria: é o seu próprio histórico dizendo onde estão os degraus. A partir daí, a decisão entre faixa de quilômetro e zona depende só de uma pergunta — no seu bairro, distância prevê custo, ou tem rio, morro e avenida no meio atrapalhando a conta?
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